Candidatura automática x autopreencher: o que sai
Procure um jeito de automatizar candidaturas e você encontra três produtos diferentes com o mesmo nome. Um cola os seus dados nos campos e devolve a página para você. Outro dispara o mesmo currículo em centenas de anúncios e mostra a contagem. O terceiro lê o anúncio, decide se ele merece o seu nome, preenche o formulário da própria empresa e clica em enviar. O texto da página de preços é quase idêntico nos três. O que chega na empresa, não. Este post é sobre como separar um do outro de fora, em cinco minutos — inclusive no nosso caso.
Três coisas que chamam de “candidatura automática”
- Autopreencher. Uma extensão do navegador reconhece os campos e cola o seu nome, o seu e-mail e os seus links. Você continua lendo o anúncio, continua escrevendo as respostas extras, continua clicando em enviar. Ela tira a digitação, que nunca foi a parte demorada.
- Disparo em massa. Volume vendido como recurso: centenas de anúncios por dia, nada lido, o mesmo currículo em todo lugar. O número do painel sobe todo dia. As respostas não.
- Envio de verdade. O programa lê o anúncio, confere contra as regras que você escreveu, abre o formulário da própria empresa num navegador real, preenche cada campo com as suas respostas, anexa o currículo, clica em enviar — e guarda a prova do que o servidor da empresa recebeu.
Quase tudo que está à venda é o primeiro, descrito com as palavras do terceiro. Não é ofensa às extensões: uma extensão que preenche cinco campos faz exatamente o que promete. O problema começa quando esses cinco campos são contados como uma candidatura e viram um número no seu painel.
O que o autopreencher deixa no seu colo
O autopreencher costuma ser medido pelos campos que ele reconhece. Meça pelos minutos que ele tira. A gente destrinchou um formulário real campo a campo — o que 147 empresas usaram no último mês — e os cinco campos em que uma extensão é boa são justamente os cinco que nunca foram lentos. Nome, sobrenome, e-mail, telefone, país: meio minuto na mão.
A hora inteira vai no que está embaixo. A faculdade é uma busca num catálogo remoto, não uma caixa de texto: digitar “Centro Universitário FIEO” não devolveu nada depois de 6,5 segundos quando cronometramos. O grau é uma lista curta e fixa de níveis que recusa “B.S. Computer Engineering”. Aí começam as perguntas da própria empresa, e elas não têm fim — um formulário pedia consentimento para gravar e transcrever as entrevistas, mais trinta caixinhas obrigatórias de países. O “como você ficou sabendo desta vaga?” só registra quando você clica na opção da lista; apertar Enter deixa o campo vazio parecendo preenchido. E a declaração final é um campo de texto onde você digita o seu próprio nome.
| Nome, e-mail, telefone, links | a ferramenta |
| Ler o anúncio e decidir | você |
| Anexar o currículo certo | você |
| Catálogo de faculdade e nível do curso | você |
| As perguntas da própria empresa | você |
| Clicar em enviar | você |
| Conferir que saiu | ninguém |
A última linha é a que vale discussão. Nada num fluxo de autopreencher avisa que a candidatura chegou, porque nada nesse fluxo está olhando depois do clique. Você supõe que saiu, do mesmo jeito que supõe que a carta que você postou chegou.
Como é um envio de verdade, visto pela rede
Quando você clica em enviar, o navegador manda uma requisição para o servidor da empresa e o servidor responde com um número. Duzentos quer dizer que ele aceitou. Quatrocentos e alguma coisa quer dizer que recusou. Essa resposta é o único ponto de todo o processo em que uma máquina consegue dizer a verdade sobre o que aconteceu, porque ela vem do outro lado.
Quase toda ferramenta pula isso e lê a página: o botão sumiu, apareceu um retângulo verde, logo foi enviada. Isso é um palpite em cima de uma foto. Um erro de validação também muda a página. Uma sessão que caiu em silêncio também. E a armadilha que a gente mediu num formulário muito comum também: depois do clique aparece um bloco chamado “Security code” com oito quadradinhos de uma letra, e chega um e-mail com o código. Em dez envios no dia 21 de agosto vimos esse código ser mandado na primeira vez que o endereço envia algo e depois ser reaproveitado, então um deles chegou quatro minutos antes do envio que precisava dele. Enquanto os oito quadradinhos estiverem vazios, nada saiu — e a página está igualzinha a uma página que terminou.
Por isso nada aqui vira “enviada” pela cara da página. Depois do clique, o programa olha o que o navegador mandou de verdade: uma requisição de envio para o mesmo site do formulário, e o número com que o servidor da empresa respondeu. Quando acha, isso entra na linha do tempo da candidatura com essas palavras — o método, o status, o endereço. Quando a rede não consegue testemunhar, exige-se no lugar uma confirmação escrita na própria página. Sem nenhuma das duas, o programa é proibido de chamar aquilo de enviado, e a candidatura fica em aberto. O screenshot do momento em que ela saiu, o log do que foi escrito em cada campo e os horários ficam arquivados ao lado. Quando a tentativa morre num muro, fica guardado mais que a foto: o HTML da própria página, a lista numerada de controles que o programa estava lendo e o registro de rede — para “o envio nunca saiu” e “o envio saiu e voltou 422” pararem de ser a mesma observação. O mecanismo inteiro está escrito na página de candidatura automática.
Por que 10 por dia ganha de 1.000
A primeira resposta é oferta. Em quatro dias de uma busca real lemos 360 anúncios em onze sites de vaga. Quarenta e sete bateram com o alvo — 13% — e nove viraram candidatura. Nas contas que a gente toca hoje, o número de vagas por dia que merecem mesmo o nome de alguém fica entre uma e oito. Uma ferramenta que oferece mil por dia não está oferecendo mil vagas boas. Está oferecendo parar de ler.
A segunda resposta é o que acontece do outro lado. Cem candidaturas de uma pessoa só numa manhã é visível para quem recruta, e os programas de contratação começaram a responder a esse padrão com verificação de fraude. As ferramentas que prometem volume invertem justamente a proporção que faz um candidato ser levado a sério, e a conta disso cai no candidato, não na ferramenta.
Então o teto aqui é dez por dia e trezentas por mês no plano pago, uma por dia e vinte por mês no gratuito — para sempre, sem cartão. Não existe ajuste que transforme dez em mil. E dez é teto, nunca meta: num dia em que nada passa na sua régua, nada é enviado, e isso é o produto funcionando, não falhando.
Cinco minutos para testar qualquer ferramenta, inclusive esta
- Peça um envio visto pela rede. Não um screenshot, não uma palavra de status no painel: a requisição que saiu e a resposta que o servidor da empresa deu. Ferramenta que não mostra isso também não sabe.
- Mande uma candidatura e vigie a caixa de entrada. A maioria das empresas manda uma confirmação automática. Se uma semana de “enviadas” não produziu confirmação nenhuma, aquela contagem nunca foi de candidaturas.
- Pergunte o que ela faz com uma pergunta que os seus dados não respondem. A única resposta aceitável é a conservadora e verdadeira, marcada para você corrigir. O que inventa uma autorização de trabalho em silêncio está gastando a sua reputação.
- Leia o preço duas vezes. Assinatura que depois vende candidatura em pacote dá um número diferente no fim do mês daquele da página de preços. Pergunte quanto custa um mês de uso de verdade.
- Pergunte em qual conta ela entra. O que pede o seu login do LinkedIn está apostando o seu perfil profissional em não ser notado. Essa conta não vale a comodidade.
- Pergunte com que frequência ela recusa. Ferramenta que nunca diz não a um anúncio não está lendo os anúncios. Peça a porcentagem que ela descartou na semana passada, e por quê.
Rode essa lista na gente. Um: sim — o método, o status e o endereço da requisição que o navegador mandou, citados na linha do tempo da candidatura, ou uma confirmação tirada da página quando a rede não enxerga. Dois: as confirmações da empresa caem numa caixa aberta para a sua busca, arquivadas na candidatura certa. Três: pergunta de formulário sem resposta verdadeira nos seus dados recebe a opção conservadora, marcada para você corrigir. Quatro: R$99 por mês cobrem as candidaturas, sem crédito por fora. Cinco: nunca entramos no seu LinkedIn, nem para ler nem para se candidatar. Seis: 87% do que lemos naquela rodada de quatro dias nunca virou candidatura. O resto está nas Perguntas frequentes.
Leia também
- Como é o formulário de vaga da Greenhouse — campo por campo, incluindo o código de oito letras que chega depois do botão.
- Robô que se candidata a vagas: como funciona de verdade — o que a imprensa deixou de fora e do que a prova do envio é feita.
Faça o teste na sua busca: crie sua conta, cole o link de uma vaga, e a candidatura volta preenchida com a requisição, o status e a foto do envio.